Em 1798, o pastor anglicano Thomas Robert Malthus publicou um livro chamado Ensaio Sobre o Princípio da População. Esse dizia que a população mundial cresceria mais do que a produção de alimentos, logo, em pouco tempo iria ocorrer fome generalizada. Ele propôs um controle populacional (como celibato, casamento tardio, abstinência sexual, entre outros), principalmente nos países pobres. Obviamente Malthus não pensou que nossas tecnologias para produção de alimentos melhoraria de tal forma que hoje é produzido bem mais alimentos do que pessoas.

Após a Segunda Guerra Mundial, apareceram os Neomalthusianos. A premissa ainda é a mesma, com a diferença de que os países pobres só são pobres porque tem gente demais. Então os governos desses países deveriam investir em controle populacional, como distribuição de preservativos, anticoncepcionais sem autorização médica e esterilização em massa. Entende-se que essa teoria queria mais era diminuir a quantidade de pessoas nos países pobres para diminuir a quantidade de imigrantes nos países ricos.

Contra essas duas teorias, havia a Reformista, que dizia que na verdade era a pobreza que gerava a superpopulação. Baseada nas ideias de Karl Marx, se melhorar a condição de vida das pessoas, com distribuição justa das riquezas, educação, saúde e afins, diminuiria o crescimento populacional.

Por que expliquei tudo isso? Porque Onde Está Segunda? (What Happened to Monday?), filme produzido pela Netflix, com direção de Tommy Wirkola, se baseia nas ideias neomalthusianas. A história do filme é a seguinte: em 2073, o planeta sofre com superpopulação. Para não ter problemas de espaços e falta de alimentos, só é permitido um filho por casal. Se nascer mais, serão congelados em criogenia, pela Agência de Alocação Infantil. Uma mulher, Karen Settman, dá a luz a sete meninas e morre no parto. Elas são criadas pelo avô, que nomeia a cada uma com um dia da semana. E é nesse dia que elas podem sair, fingindo ser a mesma pessoa. Até que uma delas, a Segunda, some e as outras querem saber o que diabos aconteceu com ela (entendeu o título do filme?).

Apesar da ideia interessante, a execução é fraca. Sério, sete pessoas tendo de fingir que são uma só, entrando em conflito com suas personalidades, é uma ideia bem interessante. As sete mulheres são interpretadas por Noomi Rapace. Uma interpretação bem qualquer coisa, mas nunca vi outro trabalho dela. Aliás, interpretações fracas reinam nesse filme. Parece que ninguém ali estava com vontade de fazer algo sério. O William Dafoe, que é o avô das meninas, me convenceu mais como Duende Verde do que como um avô preocupado com as netas e tentando fazer elas entenderem que fora de casa elas precisam agir como se fossem a mesma pessoa. A vilã da história, Nicolette Cayman, interpretada pela Glenn Close, também é qualquer coisa. Aliás, ficou parecendo que a Glenn Close queria rir de tudo, mesmo nas cenas mais dramáticas, como se nem ela estivesse acreditando que estava falando aquilo. Tem uma de desmaio que eu acabei rindo, de tão ruim. E olha que era para ser altamente dramática.

Lembra que eu falei que o roteiro é fraco? Então, na metade do filme você já entendeu tudo e já até sabe como vai terminar. Não há uma reviravolta que te pegue de surpresa. Essa história de falta de alimentos por causa de superpopulação não me convence. Faria mais sentido se fosse por falta de espaço. E há alguns trechos que deixam claro que a culpa disso tudo é das pessoas pobres. Ou seja, todos os clichês de futuro distópico estão presentes, só que usado de maneira fraca.

O filme estabelece algumas regras e alguns detalhes no começo, que depois são esquecidas. Por exemplo: um detalhe físico que acontece com uma das irmãs e depois todas precisam ter o mesmo detalhe. Só que em algumas cenas esse detalhe desaparece. Se o foco tivesse sido o suspense, explorado melhor essa realidade distópica e não a ação, provavelmente o filme seria bem mais interessante.

Onde Está Segunda? não é um filme que ofende a sua inteligência, longe disso. Você pode assistir enquanto come uma pizza ou pipoca, mas terminei com uma sensação de uma boa ideia que se melhor lapidada, seria bem melhor.