Em meados de março tive uma notícia que me deixou próximo de aumentar a porcentagem de 8,9% da população brasileira. Eu estava com grandes chances de estar diabético.

Como muitas complicações da saúde, começa onde menos se espera. Durante uns exames para a dermatologista com a qual estava me consultando, foi percebido uma taxa de glicose bem alta, uma certa resistência à insulina e uma possível infiltração no fígado.

Como toda pessoal sensata e razoável, tratei de me desesperar e sair gritando tal qual um desvairado e chorando pelos cantos. Depois do choque, uma sombra começou a me acompanhar onde quer que fosse. Uma verdadeira assombração. Um assassino lento e silencioso que a qualquer momento poderia ficar pistola e me matar do nada.

Uma gama de pensamentos bonitos e edificantes tomaram conta do meu imaginário recorrente, como glaucoma (que tive suspeitas fortes no início do ano), gangrena e perda de pé, perda da imunidade, do pâncreas, da felicidade e da força de viver.

Isso é um veneno! Tou falando do açúcar, claro.

Claro que atitudes foram tomadas. Desde o primeiro pré-diagnóstico/suspeita, aboli de vez o veneno açúcar refinado, principalmente no café, evito ao máximo massas, pães e quaisquer alimentos feitos de farinha (branca é a maior vilã) e arroz normal. Eu já vinha consumindo arroz integral um pouco antes e adotei por questão de gosto e praticidade, já que o arroz integral é muito mais simples de fazer do que o arroz comum.

Esse aqui mata menos.

Mais e mais exames foram solicitados e em cerca de um mês consegui realizar todos e veio o veredito: não estou diabético. Mas por muito, muito pouco. Aquela sombra maldita agora só fica me observando do portão. Ela nunca foi embora, mas volta e meia faz questão de dizer que está ali, me esperando pacientemente sair da linha.

Por mais doloroso que tenha sido dessa vez, o que é incomum para mim, eu voltei à frequentar a academia. De exercícios físicos mesmo, já que a academia tou longe de entrar por não me achar adequado ainda em minha formação de quase graduado em letras. Nunca foi tão excruciante passar quarenta minutos em cima de uma esteira ergométrica. Principalmente quando ela está em movimento. A cada passo o meu tanque de lágrimas ia enchendo e eu torcia que só ficasse cheio e transbordasse em casa, pois chorar na academia não seria nada bonito. Se bem que no meio de tanto suor, lágrimas nem seriam notadas. Graças aos céus não chegou ao ponto de ter de dar o sangue também. Para isso eu prefiro deixar para o rugby.

Vejam bem, para quem tem um nível de proficiência em preguiça e uma tendência ao procrastinamento enormes como eu, mudar hábitos, alimentares e físicos, é de uma ordem quase sobrenatural. Entretanto quando finalmente há uns dias consegui perceber que dada a minha parca assiduidade na academia aliada à dieta menos desbalanceada, eu consegui chegar aos 129kg de idade. Esse número pode ser assustador em muitos casos, principalmente se for o peso do seu prato no restaurante self service, mas para quem no começo do ano atigiu impressionantes 137kg e há pelo menos quatro anos não saio da casa dos 130kg.

Como eu me sinto quando consigo atingir um objetivo.

De todo modo, é importante compartilhar com vocês tanto a preocupação do aumento de pessoas que adoecem por uma má alimentação, sejam elas gordas ou magras, e também esta micro vitória que pode até parecer um tanto quanto boba, mas para quem estava olhando e flertando com o abismo e ao olhar de volta ele falou que me queria, é uma São Silvestre percorrida de joelhos.