– “Sua idiota, tomara que você morra!” Assim terminava aquela conversa de Jonas e sua mãe, quando a mesma não autorizou que o mesmo fizesse uma tatuagem aos dezesseis anos. A partir daquele ano, Jonas nunca mais dera sossego a mãe. Sempre discutia, falava mais alto, respondia, ironiza e se pudesse ficava mais de três meses sem trocar uma palavra com ela.

Os anos se passaram e Jonas não estava satisfeito ainda, tentava de todas as formas ferir a mãe. Só não batia porque podia ir para a cadeia, mas ele encheu o corpo de tatuagem aos dezoito, fumava desde a época do início da rebeldia, chegava em casa todo dia bêbado, se não, drogado. Roubava dinheiro e objetos dela só para poder ver o desespero em seus olhos.

Depois de um certo tempo, ele nem mesmo sabia como havia despertado aquele ódio contra a mãe, tudo que pudesse fazer para atrapalhar sua vida, ele fazia. Mas ele não se importava pois devia ter sido algo muito importante para ele ter ficado com raiva.

Depois de uma sucessão de excessos, Jonas sofreu um acidente de moto. Ironicamente ele usava o capacete, mas sua coluna foi empactada contra um extintor de rua e na melhor das hipóteses, ficaria paraplégico. Num dia em que conseguiu acordar de fato após o efeito do coquetel de drogas anestesiantes e mantenedoras de sua vidas perder um pouco efeito, viu sua velha mãe sentada em uma cadeira ao lado de sua cama, pacientemente fazendo palavras cruzadas. Vendo aquela cena, ele perguntou o que ela estava fazendo lá. Com toda a paciência que os anos só fizeram aumentar, disse que estava cuidando de seu filho e nem mesmo ele poderia refutar tal cuidado. Tentou começar uma discussão aumentando a voz, porém uma sensação de enjoo o calou. Nesse momento se deu conta que não sentia a ponta dos pés.

Uma semana após o acidente sua mãe continuava a seu lado. Muitas vezes eles não falavam nada, só estavam perto um do outro e Jonas tinha várias coisas para falar a ela, mas todas eram grosserias e xingamentos. Lhe ocorreu que não conhecia sua mãe direito, passou tanto tempo bolando travessuras que não tinha conversado realmente com ela. Então em um domingo ele perguntou como ela estava. Foi o ponto de partida para uma conversa que se não fosse pelas horas de sono, teria durado mais de duas semanas.

Jonas só se intrigava com uma coisa, ele sabia que toda aquela história tinha começado há muito tempo, mas que tinha sido determinante. Sua mãe, depois de muito insistir no assunto, contou a ele o que poderia ter causado tal atitude.

Quando Jonas tinha seis anos, sua mãe lhe contara que ele tinha sido adotado, explicou toda a história de sua mãe biológica, uma amiga de infância de sua mãe que não tinha condições de criá-lo e um mês depois de seu nascimento, o entregou para ela. Aquela conversa trouxe algumas lembranças a tona. Jonas se lembrou da fúria de ser abandonado, de ter sido descartado. Porém acabara percebendo que ninguém nesse mundo o amou como sua mãe e mesmo ano após ano ela estava a seu lado, apoiando, suportando, encorajando e tudo o que se espera que uma mãe faça e até mais. Ele perguntou para ela por que não tinha insistido em lhe explicar o que contecia, mas ela respondeu que iria esperar a birra passar. Só não sabia que essa birra duraria tantos anos. Jonas tinha criado um bloqueio daquele dia e por isso nem se lembrava de ter sido adotado. Pediu desculpas a mãe e a abraçou como nunca havia abraçado.

Sentindo um pouco de água escorrendo no rosto, Jonas abriu os olhos. Estava deitado no chão. A mulher com a qual ele costumava ter relações sexuais estava um pouco mais a frente, com as pernas viradas de um jeito estranho. Os bombeiros começavam a cortar suas roupas na tentativa de prestar os primeiros socorros. Enquanto ele sentia seu corpo esfriando, virou seu rosto para o céu e viu uma roda de curiosos olhando para ele, dentre eles sua mãe sorria carinhosamente. Estranhamente ele podia sentir o calor do sorriso dela. Deu um sorriso de volta esperando que ela também sentisse seu calor e então fechou seus olhos.

Texto originalmente postado em Conte Conosco