– Não me venha com conversa, Jurandir. É ou não é você que anda pela cidade como um louco batendo em marginal e fugindo da polícia? Ou vai me dizer que esse corte nas costas você fez se barbeando de novo? Isso não cola mais não, Jurandir!
Cabisbaixo com um meio sorriso mais amarelo do que as manchas de café na toalha de mesa da sala, Jurandir não sabia o que fazer. Apesar de todos os tapas de sua mulher ser facilmente simples de se desviar, ele os aceitava. Mesmo após uma longa vigília noturna.
 
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O suor escorria pela cabeça do delegado Martins. Ele odiava quando isso acontecia. Era capaz de sentir as pequenas gotículas se reunindo como boas covardes e ficando cada vez maior, tornavam-se gotas rastejantes que contrariando as leis de Newton vinham se embrenhando na escassa mata capilar, da forma mais vagarosa possível, numa tortura sem fim até chegar ao escampado de sua já enorme testa e simplesmente ignorava a existência da sobrancelha e caía em seu olho, provocando um ardor terrível. Nessas horas o delegado considerava arrancar o próprio rosto com um canivete. No entanto ele adotava a abordagem mais branda das costas das mãos, ao invés de ceder aos impulsos mais loucos que surgiam sempre que estava de tocaia.

 

Hoje era o dia. Finalmente após dois anos perseguindo um vulto, correndo atrás de boatos, enfrentando o silêncio dos que foram auxiliados, ele iria prender aquele vigilante. Estava exultante com sua inteligência e perspicácia. Perspicácia. Era a palavra ideal que Martins saboreava num ato de indulgência premeditada, um verbete à altura de sua importância. Uma expressão que ele ansiava que os jornais cunhassem sobre ele após a prisão daquele psicopata.

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Até amanhã.