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Meu velho companheiro

Há pelo menos quinze anos eu aprendi a tocar violão. Se você chama tirar acordes maiores, menores e alguns bemols de tocar violão.

A música que treinei como um desesperado e com vontade de triturar o violão com meus pés foi a favorita do Wag Eu sei, da Legião Urbana. Outras também eram recorrentes, como Medo da chuva do Raul, aliás Raulzito foi uma inspiração para tocar e até compor, e Cai a noite do Capital Inicial.

No começo é tudo muito frustrante, você não consegue memorizar os acordes, seus dedos doem, você não consegue passar de um acorde para o outro em menos de quinze minutos, a pestana é algo impossível, trocar acordes sem olhar o braço do violão era coisa de virtuose. Mal sabia eu que o pior ainda estava por vir: cantar e tocar ao mesmo tempo. Ou você erra a letra ou erra o acorde, era uma coisa de louco.

Depois de um duro tempo você se acostuma, consegue trocar os acordes na velocidade da música, dedilha, canta junto e tudo é uma maravilha. A vida faz sentido novamente e você passa a querer levar o violão para tudo que é lado. Até mesmo naquele encontro chato familiar onde suas tias perguntam das namoradinhas ou ficam te zoando, mas agora você pode se refugiar no violão e nas suas canções favoritas. Mas nem tudo são flores.

As músicas começam a fluir naturalmente pelos seus dedos, você canta e toca no ritmo satisfatório e até tira algumas músicas de ouvido. Você passa a corrigir as benditas cifras das revistinhas de banca, hoje substituídas quase que majoritariamente pelo cifra club e afins.

Você evolui, pessoal e musicalmente. Começa a curtir alguns estilos diferentes e se mete a tentar tocar um Cartola. Disfarça e chora, meu amigo. Com acordes que foram feitos com o intuito de dar nó em suas falanges, você se vê novamente na posição de iniciante. Não desiste e insiste. Cãibras são suas novas companheiras.

A coisa evolui tanto que você começa a achar chato tocar sozinho e começa a pensar em chamar amigos para tocar violão com você. A vontade evolui e você começa a ter desejo de formar uma banda e mudar o mundo com sua música, coisa que muitos jovens de quinze anos pensam e que me passou pela cabeça aos dezenove. Nesse meio tempo você também se arrisca mais na composição e escreve músicas revolucionárias. Só não recomendo que as leia após dez anos. Você sentirá vergonha alheia e dará graças aos céus de não ter mostrado aquilo para quase ninguém. A não ser que você seja uma pessoa muito talentosa, aí você não precisa ter vergonha. Qualquer coisa foi por conta de uma fase conturbada.

Após conseguir juntar alguns malucos, uma banda é formada e tudo é envolto em um mar de rosas, arco-íris por todos os lados e unicórnios viram backing vocals. Claro que não. Muitas pessoas singulares, influências diferentes, visões de mundo díspares, e uma fissura para tocar junto mesmo não tendo dinheiro para comprar uma palheta. Essa era a realidade. Por mais que você treine, você não consegue solar e não dá a mínima para estudar o instrumento que toca, afinal muitos músicos são autodidatas e você se conforma em ser um vocalista/guitarrista base. Muitos ensaios, setlist surreal montada, muita frustração por não ter onde tocar e aquela perseguição inocentemente idiota do sucesso. Claro que um dia acabaria. Uma das melhores épocas da minha vida.

O tempo vai passando e seus interesses vão ampliando e você se vê mudando gradativamente de um viciado em música para um viciado em literatura, escrever ainda é uma constante, mas o foco é outro. O tempo que se gastava descobrindo nova bandas, você garimpa novos autores, cria um nicho. Mas paixão é paixão e mesmo que agora seu coração auricular tenha se transmutado em ocular, ainda existe uma aorta no ouvido e o deleite de descobrir bandas novas, ou músicas novas de suas bandas favoritas que foram lançadas há uns anos, mas você nem percebeu ainda é enorme.

A guitarra e o violão daquelas épocas ainda estão presentes, tal qual um cachorro ansioso para lhe fazer uma festa quando abrir a porta. Você volta a tocar, redescobre o prazer e as dores de ficar mais de seis anos sem encostar em um violão. Dedos criando calos novamente, sua mão incha inacreditavelmente após cinco pestanas, mas tudo vale a pena.

Algumas tentativas de projetos são arquitetadas, mas a vida e seus artifícios dificultam e você não sente mais aquela pressão juvenil, tudo a seu tempo. Sucesso agora nem é almejado, mas tirar seu som, descobrir seu som. Você redescobre a sua nota favorita e sente o leve prazer percorrer seu corpo após executá-la. A música nunca morre onde suas raízes são fincadas.