bandeira de Caçapava

Há muito que um dos mais agradáveis passatempos, para mim, é viajar. Entrar em contato com culturas diferentes, modos de falar peculiares, até gastronomia incomum é uma das melhores coisas a se fazer. O mundo se tornou meu parque de diversões.

Acredito que meu apreço pelas viagens começou de verdade na traseira da brasília 78 do meu pai. Era pequena, ficávamos horas parados para chegar ao destino e tudo era maravilhosamente encantador. Talvez pelas melhores companhias que eu poderia ter. Meu pai, minha mãe e meus irmãos. O mais interessante de se notar dessa época é que cabíamos os três atrás do carro e com conforto.

Era uma época diferente onde não existia telefones celulares e o dinheiro era mágico. Dávamos nossos trocados ao meu pai, pois cansávamos de perder dinheiro caído do bolso para o infinito universo atrás do banco da brasília. Tudo isso com uma trilha sonora que ia dos clássicos do good times a Caça e caçador. Talvez por conta disso três crianças entediadas precisavam criar suas brincadeiras para enfrentar o trajeto de cinco horas para a cidade simpatia. Dávamos tchauzinho para os carros atrás do nosso, fazíamos concurso de piadas, quem ria por último ao receber um ataque de cosquinhas (talvez por isso eu não sinta até hoje), inventávamos diversas gincanas com as placas dos carros, sonhávamos em comer no MC Donald’s de Resende e nos refestelávamos nos sanduíches com café que minha mãe fazia.

Minha memória não é lá grandes coisas e por isso sinto muita inveja de quem lembra do nome da professora da quinta série, mas a minha olfativa é muito aguçada e por isso até hoje lembro do cheiro daquele bravo automóvel que tanto cruzou via dutra a fora.

Impressionante como uma cidade difere da outra, imagine então uma mudança de estado. Sempre ao chegar em Caçapava eu notava como até a atmosfera mudava e isso com apenas seis anos de idade. Outra coisa legal era ser estrangeiro dentro do próprio país. Foi lá que eu descobri o erre (R) retroflexo, o famoso erre caipira. Aquilo me deixou fascinado, pois era a minha língua e ao mesmo tempo não era. Descobri que o verbo xingar, tem um maior valor semântico por lá, pois além de ofender também serve para expressar quando alguém briga com outro alguém. Agora imagine isso na cabeça de um moleque de seis anos quando ouve que o filho xingou a mãe. Meu raciocínio lógico daquela época era que a mãe da criança teria extraído a dentição dela num golpe bem dado de chinelo, mas a confusão logo foi desfeita após eu questionar de que a pequena pessoa tinha chamado a mãe. A sensação de ser um intruso no lugar era maior quando eu ia à padaria e pedia alguns pãezinhos, logo notavam que eu não era de lá e as moças do caixa ficavam encantadas com meu sotaque. Mal sabiam elas que quem estava mais encantado era eu.

Tive uma infância feliz e muitas das minhas boas lembranças dela foram construídas nessa cidade. Meu destino certo a cada feriado prolongado e festas de fim de ano. Há algumas boas histórias sobre a rua da minha vó, mas isso eu comento em outra oportunidade.

Viajar é muito bom, melhor ainda são as lembranças e marcas que o passeio deixa em nós. Se é que possa existir um revés, talvez sejam as dívidas que ficam para trás e servem de lembrança tanto quanto as fotos.