Como quase tudo na vida, no começo eu era pequena, fraca e desajeitada, porém cresci rapidamente, e em algumas semanas já havia tomado uma forma mais uniforme e, permitam-me dizer, estilosa. Claro, todo o meu estilo não foi pura genética. Eu era bem cuidada, penteada e amada.

Por volta de dois meses de vida eu já havia adquirido um volume respeitável, que dava inveja a algumas pessoas e gerava um tom desaprovador a outras, mas a maioria não ligava, e eu preferia assim mesmo.

Em meu terceiro mês eu já podia me considerar uma jovem adulta. Já podia me decidir entre ficar quadrada ou pontuda, para trás ou para frente. E neste mesmo mês fui cobaia em uma experiência: resolveram me amarrar. Não digo que é uma boa sensação, porque na verdade dói um pouco, mas vou te dizer, eu fiquei linda. Esticada para baixo eu causava um certo espanto na maioria das pessoas, e vocês sabem, eu adoro isso. Mas esse estilo foi usado pouco nessa minha época da vida, afinal, eu ainda não estava totalmente preparada para essa mudança.

O quarto mês foi o melhor. Eu estava tão grande que já fazia contato com outras partes do corpo em que residi. Fazia cócegas às vezes, e era engraçado. E neste período eu senti que realmente estava pronta para aquele estilo tão diferente, odiado por alguns e venerado por muitos. Foi a época em que mais fiquei amarrada. Fui a eventos importantes com aquela forma e comecei até a me vestir assim no dia a dia.

Mas a vida é cruel e nem mesmo eu, com toda minha imponência, consegui escapar das atrocidades que ela nos reserva. Sem mais nem menos aquele chiado horrível foi chegando perto do meu ouvido, e em poucos segundos, sem dó nem piedade, eu estava destruída, jogada na fria pia do banheiro, como se nunca tivesse sido de alguma importância àquele corpo que me deu uma moradia.

Hoje, andando pelo mundo e refletindo sobre tudo o que vivi, percebo que a culpa não foi minha. Tampouco daquele que me deu um teto para viver. Apenas tinha de ser assim.

Espero que os filhos que deixei para trás tenham uma vida tão gloriosa quanto a minha, e brilhem tanto quanto eu brilhei, apesar de nunca ter usado gel.

Barba