Ao ver a cena que menos esperava que seus olhos registrassem, José ergueu Carlos pela camisa e o jogou o mais longe que pôde. Madalena o olhava como se fosse uma assombração e ele não sabia se era medo ou surpresa, mas não se importava. O que realmente importava era acabar com a raça do maldito traidor que tudo lhe tirou.

– Quase acreditei na sua promessa! Até eu ser levado para aquela emboscada na qual meu pelotão foi cercado e morto. Por todo o caminho só via destruição, fome e misérias jamais vista neste reino. Perdi tudo que me era precioso e por sua causa!

Sem nem esperar pela resposta ou defesa, José pega o pedaço de madeira que Carlos entalhava e começa a bater seguidamente em seu rosto, o sangue cada vez mais salpicava seu rosto, dando-lhe uma aparência demoníaca, quase reptiliana e ele  sentia enquanto batia cada vez mais forte, o gosto ferroso em suas presas e em sua língua que pendia de um lado para o outro tateando o ar.

Carlos quase entrando no mundo dos mortos teve a impressão de sentir as escamas de José enquanto se debatia, tentando afastar seu agressor. Porém mal tinha forças para continuar respirando e finalmente se entregou à sua punição.

Depois de quase ter afundado o crânio do traidor, José percebeu que não tinha mais niguém em casa e seu ódio ainda o consumia, queimava seu estômago e subia pela garganta. Achou que estava desfalecendo  e ainda segurando Carlos, pensou que vomitaria de nojo em cima dele. Porém ao invés de seu suco gástrico, labaredas irromperam de sua boca e queimaram sua vítima até restar nada mais do que seus ossos incandecentes.

Quando recuperou seus pensamentos, resgatados do mar de ódio que o engolia, se surpreendeu ao perceber que sua família o observava atônita do lado de fora e pelo fato de seu rabo ter batido na cadeira quando se virou para lhes chamar. Ao tentar dirigir-lhes alguma palavra, emitiu um silvo que ia do mais sombrio grave ao agudo aterrorizador e desesperado cravou suas garras no chão.