Os cachorros latiam cada vez mais perto, a floresta era muito mais densa do que imaginara e cada dez passos, era seguido de um tropeço. Os guardas estavam cada vez mais próximos e o desespero começou a tomar o corpo de José por inteiro. Ele exalava, além do odor pútrido de um escravo que não se banhava há meses, um cheiro de medo e excitação. A fuga não fora planejada, mas muito desejada desde a sua captura.

José ainda não sabia como havia parado no condado de Souzas, mas há três anos era escravo de Dom Ignácio e era tratado pior do que os porcos dos quais tratava. A situação desumana a qual era condicionado, só lhe alimentava o ódio e fortalecia seu desejo de escapar daquele lugar e retornar para sua esposa e filhos.

Só pensava em retornar para sua terra, onde ninguém era senhor de seus domínios e era livre para administrar suas terras do jeito que bem entendesse. Seus pensamentos foram interrompidos quando, quase por descuido, caiu em um abismo depois de mais de sete léguas de corrida desenfreada perdido em seus devaneios.

Após uma semana de viagem à pé e a carona de carroceiros que o ajudaram no caminho, José chega à sua vila. Estava do jeito que se lembrava: O poço com o balde imenso furado, a igrejinha descascando as paredes encardidas, o ferreiro a malhar o aço e sua casa, saindo a característica fumaça da fornalha, resultado dos pães que sua mulher fazia todos os dias. Porém algo estava estranho. Tinham roupas que não eram as suas penduradas no varal, e pelas suas contas, seu filho mais velho ainda demoraria uns 10 anos para vestir trajes daquele tamanho.

Se esgueirando pelas ruas sem ser notado, chegou à porta. Respirou. Abriu-a de uma só vez e a imagem que se seguiu o deixou aterrorizado e ferveu seu sangue em questão de segundos: Carlos, seu grande amigo estava sentado em sua cadeira favorita a fumar seu cachimbo entalhando um pedaço de madeira enquanto Madalena lhe beijava a face e as crianças brincando no chão.

Soltou um urro que o deixou sem ar, pois tamanha traição encheu de sangue suas vistas e tudo ficou vermelho.