Eu decidi realmente ser professor de Geografia quando estava no terceiro ano da faculdade. Foi quando tive os primeiros estágios em sala de aula. Aos poucos fui conhecendo e me encantando com essa profissão que perdeu boa parte do seu respeito perante a sociedade e ao governo.

Tive a oportunidade de fazer estágio tanto em escola pública quanto escola particular e pude perceber o abismo que existe entre esses dois pontos que deveriam – salvos alguns detalhes – estarem em pé de igualdade.

Aí em 2009 eu arrisquei sair de um emprego fraco que me rendia pouca grana mas em compensação ela estava sempre ali, para começar a lecionar como eventual. E só um eventual sabe como é dificil você entrar numa sala que você desconhece para substituir um professor que você não conhece e ainda assim tentar manter a ordem e moral e tentar ensinar algo.

Só um eventual sabe como é complicado você saber seu salário não tem valor fixo, você não tem nenhuma bonificação e se você pisar fora da linha, corre o risco da escola nunca mais te chamar. Sim, porque além de faltar professor, algumas escolas tem o hábito de chamar apenas os preferidos delas. Já fui em várias escolas me cadastrar para eventualidade e ouvir da secretária um “cadastramos, mas queremos exclusividade”.  E quando te ligam as 7 da manhã? Geralmente acontece isso:

– Faltou um professor, você pode vir?
– Ok. Mas qual horario?
– Agora.
– Mas eu moro do outro lado da cidade!
– A gente segura eles na sala por uns 10 minutos…
– Ok. Qual disciplina?
– Física.
– Física?!?! Mas eu sou Geografia!
– Dá qualquer coisa que está valendo.

Ou seja, tanto faz se você ensinar Física ou Geografia ou desenho livre ou qualquer outra coisa quando se é professor eventual. Desde que você segure eles dentro da sala de aula, está valendo.

E um professor pode lecionar, por lei, 8 aulas em um dia. A coisa mais normal é a escola te oferecer mais aulas e “te pagar” outro dia (as aulas extras eles marcam em outro dia). Eu já cheguei a ficar o dia todo em uma escola (das 7 da manhã até as 11 da noite) só para fazer com que o “salário” viesse um pouco maior. Salário esse que você só recebe 2 meses depois.

A situação não muda muito quando se vira professor contratado. Você tem sua turma fixa, mas dependendo da carga horária, acaba pegando umas aulas eventuais para ajudar no salário. Eu faço isso. Não sei dizer em outros Estados, mas sabia que em São Paulo o professor eventual/contratado sai entre 15 a 20% mais barato para os cofres do Estado?

Sem contar, claro, com as situações precárias de infra-estrutura que muitas escolas estão. Eu vejo 3 fatores que colaboram para essa situação: pouco investimento público, diretores não capacitados para uma administração e a destruição do patrimônio pelos alunos.

O professor no Brasil é desvalorizado. Repito: não posso dizer pelos outros Estados, mas aqui em São Paulo é bastante. Ainda mais para a importância da profissão. Não estou desmerecendo outras profissões, longe disso, mas considero o professor essencial para um país: é ele que vai ajudar a entender o be-a-bá, a fazer operações matemáticas, a ter um pensamento critico e, o que é mais nobre, vai te ajudar a ser cidadão. E é isso que um professor, no fundo, quer que o aluno seja: alguem que vença na vida. Que você, um dia em sua vida, olhe para trás e saiba que se não fosse a Dona Cotinha que te ensino o A, o B e as outras letras do alfabeto, lá no começo da sua vida, hoje tudo seria diferente.

Alias, se você chegou até aqui neste post, você tem que agradecer muito aos seus professores.

Lembra quando você se perguntava “pra que eu estou aprendendo isso, nunca vou usar na minha vida?”. Bem, saiba que educação é um investimento a longo prazo, ao contrário do que acha o governo.

Graças a uma politica confusa que quer resultados imediatos com o menor gasto possivel, temos hoje essa situação caótica. Professores mal remunerados e pessimamente incentivados a continuar na profissão, alunos crescendo burros e condições de trabalhos complicadas. Eu já tive medo de apanhar em sala de aula só porque o que eu queria era ensinar mas, já vindo de uma “cultura de menosprezo” alguns alunos me ameaçaram e disseram que o que eu devia fazer é sentar na mesa do professores e ficar quieto e deixar eles jogarem baralho.

Quem é o culpado numa situação dessa? Quem é a vítima? Todos são culpados e todos são vítimas, essa é a verdade.

E outros problemas que existem, como a falta de tempo para preparar uma boa aula, salas lotadas e por aí vai. Já que o governo faz vista grossas para esses problemas, o culpado acaba sendo o professor.

E com todos os perrengues da profissão (você pode ver alguns aqui neste post), eu gosto de lecionar, eu gosto do desafio e sei que se eu conseguir fazer pelo menos 1 aluno aprender e ter uma vida melhor graças ao que eu ensinei, sei que estou fazendo um bom trabalho. Ensinar é uma guerra que se ganha com pequenas batalhas.

Neste dia 15 de outubro, em que se é comemorado o dia do professor, eu dou meus parabens e uma boa sorte a todos que se aventuram nessa profissão. Se você é professor e continua na profissão, vou terminar este post parafraseando um filme: Você é a resistência!