Eu lembro quando voltei para casa depois de uma sessão de Batman – O cavaleiro das trevas, eu ter dito para o meu irmão que tinha baixado o Cap. Nascimento no Batman. Pois é, mas aqui no Rio de Janeiro parceiro, Batman é apelido de miliciano. Dando como explicação lógica para o nascimento das milícias, o aumento do combate ao tráfico de drogas e o prejuízo nos esquemas de corrupção entre policiais e traficantes, Tropa de Elite 2, usa o personagem Cap. Nascimento (Wagner Moura), agora Tenente Coronel Nascimento, como o principal algoz das tais facções criminosas que usam distintivo.

Mas, nada disso antes do terceiro ato, que dá seu tapa na cara do telespectador demonstrando quem financia os verdadeiros e maiores criminosos do país. Em poucos minutos do primeiro ato de Tropa de Elite 2, se dá aquela mensagem não entendida por grande parte do público no Tropa.1, de que há algo muito errado quando uma parcela da polícia tem no uniforme uma caveira, que é o símbolo da morte. Se mais uma vez a mensagem não foi compreendida eu não sei, mas creio que a manta de herói para o policial Nascimento é “mantida” nessa continuação algo contestado pelo diretor José Padilha em relação ao primeiro filme.

E creio que Padilha se rendeu um pouco a figura folclórica e nerd criada para o personagem pelo público, isso vemos na cena em que Nascimento após ter seu carro cravado de balas se ergue e de peito aberto manda bala nos seus inimigos. Sem dúvida o Nascimento criado no imaginário popular faria isso.

Mas, é a escalada de Nascimento e a sua proximidade dos poderosos, sempre com sua excelente narração em off, que é conduzida em um belo roteiro que enlaça bem ficção e realidade. Talvez tecnicamente falando o filme seja um tanto falho ao criar certas proximidades como, por exemplo entre Franga (Irandhir Santos), o professor de história, protetor dos direitos humanos, e que acaba se candidatando ao cargo de deputado, com a família de Nascimento, sendo Fraga o novo marido da ex-mulher de Nascimento (Maria Ribeiro) e chefe de seu filho Rafael (Pedro Van Held), que cresce distante de seu pai, pois apesar destes manterem contato, só tem como único elo de ligação as aulas de Jiu Jitsu.

Se a parte pessoal da vida de Nascimento é falha, o lado profissional é eficaz, pois como o próprio diz, quando é promovido a secretário de segurança ele consegue transformar o Bope, antes defasado, como é demonstrado no primeiro filme, numa máquina de guerra, com seus helicópteros e caveirões. No entanto, daí vem as questões mais delicadas a serem discutidas ao longo do filme, que apesar de o Bope ser o bastião de honestidade da corporação e forma mais eficaz de combate bélico ao trafico de drogas, pode ser alvo de manipulação de interesses políticos escusos. Um momento marcante do filme é quando após um tempo afastado do Bope, Mathias (André Ramiro), volta a usar o seu uniforme preto ficando novamente frente a frente com Nascimento, e nesse dialogo fica clara a diferença entre “esculachar” e fazer o que é certo.

O filme assim como o primeiro, é eficiente também na parte do humor tendo André Mattos com seu Fortunato, uma caricatura perfeita dos apresentadores de programas policiais de tv, rendendo boas risadas, muito embora tenha sido forçada uma barra deste também ter ligações escusas, mas acabou que sendo um bom personagem.

Eu gostei mais do Tropa de Elite.1, mas é no Tropa.2 que talvez nos aproximemos mais da solução dos problemas abordados nos dois filmes, e é louvável a demonstração de seus realizadores pela luta de uma nova consciência política nacional. Obrigado Padilha mais uma vez.

Direção: José Padilha
Roteiro: Bráulio Mantovani
Elenco: Maria Ribeiro, Wagner Moura, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Tainá Müller, Pedro Van Held, Irandhir Santos

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