Diz o ditado que: A curiosidade matou o gato.

Naquele momento Tiago estava vivendo aquilo, sua amada Clarisse jazia sorridente em seus braços e um vulto negro o observava enquanto ele lhe devolvia o olhar, porém só fitava o vazio.

A figura à sua frente era uma confusão de imagens intensa, hora era um homem baixinho, hora ajeitava seu bigode longo para logo em seguida ajeitar seu vestido de festa. Era algo um tanto quanto pertubador e sinistro de se ver. Até que a imagem se estabiliza na forma de uma menina. Aquela era uma pessoa que não era estranha para Tiago, na verdade ele jurava que sua irmã mais nova estava à sua frente bem ali no meio daquele caos, porém quando a pequena lhe dirigiu a palavra era como se fosse o vento sibilando em fúria em meio a uma tempestade.

– Tiago, eu sei que a dor lhe é profunda. Não precisas ter medo, sou teu amigo e estou aqui para lhe fazer uma oferta.

– Quem é você? Como você me conhece? Por que você se parece com a minha irmã? O que está acontecendo?

– Como eu já lhe disse estou aqui para lhe fazer uma proposta e não para elucidar teus dilemas. Estás disposto a me ouvir?

Tiago tenta se mexer, mas a dor é grande, o que lhe impossibilita de mover os músculos da perna direita bastante machucada. Olha à sua volta e as pessoas continuavam inertes como manequins em uma vitrine, sem som, sem calor. Somente o frio infernal que lhe fazia bater o queixo. Já havia se acostumado com o cheiro de sangue e já não lhe incomodava. Quando seu corpo se acalmava sua visão inferior o lembrava do desespero e se recordava da cena de sua amada voando pelo ar enquanto ele próprio também era jogado com força na direção oposta. Desespero e lágrimas. Era o cliclo que se repetia sem cessar durante aqueles momentos, não sabe ao certo quanto. Emfim se rende à figura estranha que estava em sua frente lhe encarando com um quê de curiosidade.

– Que proposta é essa? – Berrou – O que você quer?

– Minha proposta se baseia em trazer esta que está em teus braços de volta ao convívio dos mortais.

Tiago não podia acreditar no que seus ouvidos ensanguentados ouviam, sua amada Clarisse de volta à vida?

– Eu quero, eu aceito. Aceito o que for, mas a traz ela de volta, acaba com meu sofrimento, não posso viver sem ela!

– Então me ouças com atenção. Eu trago tua amada de volta ao mundo dos viventes, porém deverás trocar de lugar com ela. Uma vida por outra, essa é a lei.

Tiago fica atônito, o que era esperança se tornou dúvida e seu mais novo companheiro estava de volta: O desespero. Tiago não tinha medido ainda o peso daquelas palavras. Ele poderia salvar a sua amada, aquela pela qual havia se apaixonado desde o primeiro ano de faculdade, mas pelo preço de sua vida.

– Eu aceito.

– Então que assim seja.

No breve momento de um piscar de olhos Tiago sente algo lhe puxando como se fosse tragado pelo próprio umbigo. As imagens passam rápido por seu olhos e como se fosse um expectador ele vê as imagens do seu dia se repetindo até que se vê de volta às escadarias da faculdade, saindo alegremente de mãos dadas com Clarisse. Cada vez mais próximo até o momento do atropelamento.

Silêncio.

O barulho das buzinas ao longe davam um formigamento nos ouvidos, um súbito calor se manisfestava em meio a calafrios, tontura, pessoas, gritos, luzes, asfalto, levanta, cai.

Tudo confundia Clarisse e num momento de clareza ele olha para o lado, e lá vê Tiago, seu amor recém-revelado, ainda sustentando um sorriso suave na boca, com as pernas viradas de um modo diferente e o braço dobrado mais de três vezes, o calor era tamanho que Clarisse não sabia mais se o que escorria de seu rosto eram lágrimas, suor ou sangue, um cheiro de carne queimada e os lábios com aquele gosto de gordura queimada ao mesmo tempo enojava e entorpecia.

Ela se arrasta em direção à Tiago e o abraça, chora e amaldiçoa tudo que existe por ter acontecido essa tragédia com seu amado.

Então o tempo para e tudo silencia. um frio intenso toma conta de seu corpo e ela se depara com um vulto estranho que se parece com sua falecida tia…