cadernoSemana passada, em sala de aula, flagrei um aluno – ele devia ter entre 15 e 16 anos – escrevendo uma cartinha para uma garota, ao invés de fazer a atividade que eu havia proposto. Ele ficou envergonhado com isso, mas eu entendi e permiti que ele terminasse a carta.

Primeiro fiquei surpreso, achei que a garotada só escrevesse scrap no orkut – até email já está ficando ultrapassado. Outro é que me fez lembrar um fato da minha adolescência.

Eu sou grato por já ter passado dessa época da minha vida. Porque é tudo extremo: ou você morre de amor ou vai morrer solteiro – e é preciso ter muito carater para pensar que vai morrer solteiro aos 15 anos. Ou você gosta de heavy metal ou não gosta de nada. Ou você tem espinhas, ou não tem. Aparentemente é simples, mas na prática ser adolescente é complicado demais. E chato.

E eu tinha inveja dos garotos que conseguiam conquistar mulheres. Para eles, isso era tão fácil quanto comprar pão na padaria. Já comigo, era uma tarefa homérica. Mais fácil era dar um tapinha na bunda do Papa do que conquistar uma mulher. Timidez, insegurança e espinhas. E cabelo ruim. E um pouco de nerdice, para dar um gosto.

Eis que um dia um fato inusitado acontece. Estava eu – segundo ano do ensino médio – rabiscando palavras a toa no caderno, esperando a correção dos exercicios, quando um garoto da minha sala, o Gustavo, me pede ajuda.

– Cara, me ajuda! Estou afim da Renata! Me ajuda a escrever uma carta aí para conquistar ela.
– Ué? Escreve você, cara. Não sei o que você sente por ela.
– Você é melhor que eu nas palavras. Me ajuda aí!
– Mas você é pegador e tal, chega junto, oras…
– Ela é diferente! Me ajuda aí! Te pago um salgado!
– Ok.

Me vendi fácil. Devia ter cobrado dois salgados. Ou mais.

– Posso entregar amanhã? Hoje tem prova de matemática.
– Beleza. Conto contigo, hein!

Passei o resto do dia, até a hora de ir embora, olhando para a Renata. Ela realmente era muito bonita. E simpática. E morena. Entendia perfeitamente porque o Gustavo gostou dela. Qualquer um gostaria. E sabia também que ele não precisava de carta, o cara era boa-pinta. Nem tinha espinhas! E tinha grana. E lábia. Coisas que eu não tinha. E ainda não tenho, mas vamos lá, me vendi por um salgado.

Cheguei em casa e pensei em tudo que talvez ela gostaria. Tentei fugir do clichê, mas isso é deveras complicado de fazer aos 15 anos. Devo ter colocado algum trecho de música, não lembro da carta inteira. Lembro de um trecho:

É muito fácil falar de sua beleza. É chover no molhado. Prefiro me prender a outros detalhes que não são vistos por olhos comuns, cansados, que cairam na rotina. Eu tento te enxergar além.

Fiquei feliz por esse trecho ser 100% meu. Na época não soou clichê. Hoje tenho minhas dúvidas, mas ainda gosto dele. As vezes não tem problema ser clichê.

Enfim, dia seguinte entreguei a carta. Duas folhas. Fiquei inspirado para escrever. E parte disso é culpa da letra grande.

– Agora você reescreve a carta com sua letra.
– Beleza. E aqui está o dinheiro do salgado.

Eu realmente devia ter cobrado dois salgados. A carta realmente tinha ficado boa. Tanto que ele conseguiu ficar com a Renata. Me bateu uma inveja, afinal, uma pequena porcentagem daquela vitória era minha.

Ano passado, encontrei a Renata, sem querer, por aí, no centro. Conversamos amenidades (“e aí, o que você fez depois da escola? está trabalhando?”). Aí, não sei porque desenterrei isso, mas perguntei pelo Gustavo.

– Ah, namoramos por um tempo…
– Ah, é?

Cínico.

– Sim, sim. Você não lembra?
– Putz, não muito. Desculpe.

Mentiroso

– E eu lembro da sua carta.
– A cart… ahn? Que carta?

Eu devia ser ator. Finjo que é uma beleza. Acho

– Que você escreveu, oras.
– Como você sabe que era minha?
– Porque era a sua letra.

O Gustavo não reescreveu a carta. Burro. Porém pegava mulheres e eu, gripe.