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Uma vida em rascunho. Era assim a vida de Fernanda. Marcada pelas cicatrizes do passado, o silêncio pintava-lhe o rosto, aprofundava-se na alma e circulava pela casa.

Uma casa simples em que tudo que a decorava apenas eram objetos de uso diário e as roupas somente vestiam e nada mais. As janelas deixavam entrar luz, mas essa não iluminava mais a escuridão que encobria Fernanda.

Apenas um lugar na mesa, sem filho nem filha. Entretanto, uma cicatriz na barriga que doe quando chove. Muitas outras cicatrizes, muito profundas também são presentes naquela bela pele já não cuidada.

Não há mais sentimentos nem emoções. Tudo para ela é puramente um objeto sem qualquer importância mínima. A rotina faz parte da vida e provavelmente isso não irá mudar. De madrugada vai trabalhar como operária numa fábrica têxtil do outro lado do vale. À tardezinha, pela estrada tortuosa o ônibus da empresa a deixa em casa. Ela atravessa a rua, passa pela porta e entra, mas não se sente mais em casa. Encontra um envelope de fotografias na cabeceira, abre-o e vê um sorriso e mãos unidas com as de outro alguém.

Lembra-se, então, daquele dia. Chovia também. Havia uma mulher de repouso sobre uma colcha de retalhos, uma cicatriz na barriga, dois corações machucados e lágrimas. Duas portas se fecharam, uma delas nunca mais se abriu.

Uma dor de dente não incomoda mais, quadros pendurados estão tortos, empoeirados e esquecidos. Um caminhar de cabeça baixa e sonhos de uma criança de sete anos não vividos e da primeira alegria vivida aos quatorze com o primeiro namorico. Somente um cadáver, uma dívida consigo mesma, uma lembrança que podia ter virado história, fotografias velhas, cartas rasgadas ou nem abertas sobraram.

Uma tristeza, um passado que perdurou no presente, um futuro sem perspectiva. Uma resposta, àquela pessoa, adiada. Uma vida em rascunho, sem tempo de passar a limpo.

Baseado no conto de Ricardo Ramos “Circuito Fechado (4)” in Circuito Fechado. São Paulo: Martins, 1972. (contos).