Utimamente anda difícil escrever e postar algo. Não só por causa da escassez do meu tempo livre, mas porque tenho um texto empacado na minha cabeça e ele não consegue se transcrito de forma descente, o rascunho que escrevi foi para o lixo. Mas tudo bem, uma hora ele sai. E, na verdade, espero que isso ocorra porque não sei se isso já ocorreu com vocês, mas quando uma boa temátia não consegue ser passada de forma descente para o papel ela fica presa na cabeça e impede que outros textos possam ser pensados, refletidos e escritos.

Enfim, estou fazendo uma hemeroteca, para quem não conhece é uma seção da biblioteca que conta com reportagens de jornais e de revistas. O que tenho que fazer é o seguinte: escolher 30 artigos e comentar cada um. Bom, resolvi colocar o comentário de uma das notícias aqui, já que ele ficou bacana.

            A iniciativa de preservação ambiental se concentra, em sua maioria, nos estados de menor Índice de Desenvolvimento Humano que é definido pela qualidade de vida, renda per capita, saúde e educação. Essas são áreas de baixa urbanização e que têm poucas alternativas de geração de renda o que faz com que qualquer atividade predatória seja considerada progresso. São regiões de conservação da biodiversidade mais intacta que formam retalhos mal costurados e que escondem falsas iniciativas de sustentabilidade empresariais e são julgadas como obstáculo ao desenvolvimento do estado. A empresa Energia Verde, por exemplo, que é um empreendimento nacional faz parte do Plano de Manejo Florestal, mas na verdade é uma empresa de exploração de madeira e interessada na área para plantio de milho, soja e arroz, utilizando mão-de-obra infantil e semi-escrava. Outras empresas atuam no desmatamento das matas a fim de vender carvão vegetal às siderúrgicas, alegando estarem trazendo emprego à região.

            Essas empresas conseguem se manter na região e no país, pois a maioria do povo brasileiro não é consciente do problema e também não sabem como pode atuar contra a muitas dessas situações. Além disso, esses empresários têm ligações estreitas com políticos de Brasília, governadores e prefeitos. Assim, essas empresas financiam a candidatura desses políticos e eles permitem a manutenção desse quadro. Quadro este que mostra o desmatamento de áreas cada vez maiores e apropriação de terras da União por grupos latifundiários.

            A tentativa do Ministério do Meio Ambiente em lutar contra esse sistema é anulada por outros ministérios e por essas ligações políticas, pois a política do meio ambiente no Brasil não é levada, em muitos casos, em consideração. As críticas desses grupos contra o ministério é que ele está agindo nas áreas em nome de Organizações Não Governamentais ambientalistas. Talvez seja por isso também que a ministra Marina Silva tenha pedido demissão, pois as leis ambientais não são consideradas para orientar e direcionar o desenvolvimento do país.

A reportagem mostra como o Piauí está na rota das carvoarias, sendo palco de interesse político para que se crie novo território ao sul do estado a fim de servir de celeiros exportadores de soja e venda de madeira em forma de carvão vegetal. As empresas desta região recebem apoio dos prefeitos de onde estão sitiadas com o argumento que trouxeram benefícios à população como estradas, pontes e comércio. Entretanto, para a oposição como sindicatos de pequenos produtores essa política beneficia as empresas e o que vemos é um quadro de exclusão e fim da agricultura familiar, tradicional e de produção alimentar, pois os produtos agrícolas são voltados para a exportação como a soja.

As atividades sustentáveis podem ocorrer quando houver preferência para a melhoria da qualidade de vida da população pobre, quando a legislação ambiental for obedecida com rigor e quando as empresas diminuírem seus lucros para que essas diretrizes possam se realizar. Enquanto isso, a sustentabilidade é uma utopia e mais áreas serão desmatadas com o falso argumento de serem cidadãs e estarem colocando em prática sua função social.

fonte do artigo: FILHO, Maurício Monteiro. A devastação do Piauí. Rolling Stones Brasil. São Paulo, nº19. p.85-90, abril 2008.