Como acontece todos os anos no mês de junho, uma multidão de GLBT (gays, lésbicas, boiolas e transviados) sai às ruas de São Paulo para comemorar o Dia Internacional do Orgulho Gay.
Dá para entender a existência de homens que praticam o amor que não ousa dizer seu nome. O.k. Tudo bem. Mas isso, por acaso, é motivo de orgulho? É motivo de orgulho preferir o Vampeta a uma… uma… bem, a uma… lambreta?

Sim, é! É, sim!

Não seja reacionário, leitor. Nesta época globalizada pós-freudiana e pós-marxista, com a civilização ocidental caminhando rapidamente para o declínio, fazer um sexozinho gostoso em casa não é o suficiente. Não, não, não.

É preciso gritar nas ruas as nossas preferências (“Me chama de Big Brother Brasil e devassa a minha intimidadeeee!”). É preciso expor as nossa taras (“Me chama de pastel e me enche de carneeeeeee!”). É preciso, enfim, botar a cama na janela (“Me chama de World Trade Center e explode dentro de mimmmm!”).

Não temos motivos para nos envergonhar de nada. Nada. Vamos todos sair alegres e saltitantes pelas ruas. Os zoófilos e suas cabras. Os coprófilos e seus penicos. Os pedófilos e seus turíbulos. Os podólatras e seus sapatos. Os necrófilos e suas esposas inglesas.

Não nos acorvademos. Mesmo nós, homens heterossexuais, que gostamos simplesmente de mulher, não devemos temer a ira da sociedade. Gostamos de mulher, sim, e daí? Eme-u-éle-e-acento-no-e. Mulher. Por quê? Vai encarar?

Mesmo que sejamos discriminados, não podemos nos render. Vamos dizer bem alto: “Mulher é bom e é legal! Tenho orgulho de ser heterossexual!”.

Nós, a minoria heterossexual, temos que nos organizar e fazer também a nossa marcha. Por isso, a partir desta data, convoco os companheiros heterossexuais a entrar para o M.A.C.H.O. (Movimento de Ação Comum do Heterossexual Oprimido).

O M.A.C.H.O. vai organizar churrascos, peladas e campeonatos de monster trucks para ajudar o movimento a crescer e engrossar.

O M.A.C.H.O. vai montar um comitê de vigília para que a mídia não mostre heterossexuais estereotipados e caricaturas nos programas de humor. Carlos Massaranduba denigre a nossa imagem. A gente não gosta. Buuu. Fora.

O M.A.C.H.O. vai promover e divulgar a obra dos mais importantes artistas e intelectuais heterossexuais de todos os tempos. Andy Warhol, não! Picasso, sim! Marcel Proudst, não! Machado de Assis, sim! Virginia Woolf ruim! Ernest Hemingway bom! Gugu bobo! Ratinho bacana!

O M.A.C.H.O. vai criar o Dia Internacional do Orgulho Hétero para que possamos sair às ruas com a cara cheia de manguaça e vestidos de mulher! Oba, oba!

Pensando bem, é melhor rever esta última proposta.

O que importa é que nós, homens heterossexuais, estamos unidos por um mesmo ideal: ficar desunidos o mais rápido possível e arranjar uma mulher pra gente se unir!

Mulher é bom e é legal! Tenho orgulho de ser heterossexual!


Texto de Edson Aran, publicado originalmente na Revista VIP, edição 207 – ano 21 – nº 7 – julho 2002. Página 22